Livros & Leituras

Crítica: À escuta dos amantes

Júlio Machado Vaz cumpriu recentemente quarenta anos de prática clínica, a escutar. Uma palavra chave e muito provavelmente o seu segredo.

Texto Irene Mónica Leite

Nesta obra, através de uma linguagem simples e próxima, o aclamado psiquiatra estabelece uma reflexão através daquilo que aprendeu com os seus pacientes para pensar sobre si mesmo e sobre a medicina que pratica, ensina e sonha.

Um discurso aberto e na primeira pessoa em que quem aprende a escutar acaba por ser precisamente o leitor. Os papeis invertem de forma harmoniosa.

O livro, constitui também como uma cuidada observação da vida. Aqui o autor não esconde algumas intimidades: do romance sempre adiado, passando pelo olhar do cidadão sobre o quotidiano, até ao diário da digressão poética e musical jamais imaginada. Menções a Neil Young inclusive!

“Eu vivo do meu trabalho. Enquanto estiver lúcido, vejo com muita dificuldade eu deixar de dar consultas. Se deixasse agora, preto no branco, não podia ter o estilo de vida que tenho. E que me agrada. Se você me perguntar: ‘É daquele género de gostar de garrafas de vinho e de espumante de centenas de euros?’ Não, não sou. Mas não gosto de estar a fazer contas de cabeça quando, ao fim-de-semana, saio com a tribo para jantar. E cada vez menos – e isso veio com o passar dos anos – gosto de estar a perguntar a mim mesmo se é assisado ou não fugir para Barcelona para comer umas tapas e ver um jogo de futebol”, disse Julio Machado Vaz ao DN Life.

Na mesma entrevista nasceu a seguinte pergunta: “O psicólogo João Machado Vaz pede muitos conselhos ao psiquiatra Júlio Machado Vaz?; É até mais frequente – e é muito bonito e reconfortante – ele aparecer com um brilho nos olhos e dizer: ‘Pai, tenho um caso lindo. Vamos conversar um bocado sobre isso?’ Isso dá um gozo extraordinário. Ainda por cima porque o João, além de psicólogo, doutorou-se em filosofia. Portanto, há determinadas áreas que ele domina e eu não e às tantas estou eu a aprender com ele. Metade, ou mais, da tese do João eu não entendo. É uma visão filosófica de determinada parte da história da psiquiatria. Em contrapartida, fico fascinado por aquilo estar maravilhosamente escrito”, referiu.

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