O primeiro (e último) amor nunca se esquece
Há canções que ouvimos; há outras que nos carimbam. Quando, em 1976, o britânico John Miles entoou pela primeira vez “Music was my first love, and it will be my last”, ele não estava apenas a escrever um refrão marcante para as tabelas de vendas. Estava a esculpir em pauta um manifesto sobre a própria condição humana — uma obra que funciona, simultaneamente, como o epítafio definitivo para as nossas dores e como o veículo supremo da nossa catarse.
Foto/Pixabay
Texto/Irene Mónica Leite
O impacto emocional de “Music” não é fruto de um acaso romântico. Existe uma arquitetura quase cirúrgica na sua composição. A obra arranca na nudez absoluta: um piano solitário e uma voz frágil, assemelhando-se a uma confissão murmurada ao ouvido na penumbra do quarto. É a vulnerabilidade em estado puro. Porém, sem aviso prévio, a orquestração majestosa de Andrew Powell irrompe pelo espaço, transformando aquele sussurro num vendaval sinfónico.
Esta oscilação entre o íntimo e o épico — pontuada por transições de ritmo que desafiam a estrutura tradicional da música pop — coloca o ouvinte numa espécie de montanha-russa neurológica. O cérebro, confrontado com a alternância constante entre a tensão harmónica e a sua súbita resolução, responde através de um fenómeno psiquiátrico fascinante: o frisson. É essa tempestade de dopamina que faz a pele arrepiar e as lágrimas transbordarem sem pedir licença.
Contudo, a verdadeira genialidade da canção reside na sua universalidade. Ao contrário da maioria das baladas, “Music” não é um hino sobre uma paixão romântica terrena ou um amor desfeito por razões humanas. O objeto dessa devoção incondicional é a própria arte do som. Numa frase como “In this world of troubles, my music pulls me through”, John Miles dá voz àquele que é o refúgio secreto de quase todos nós. Dai o seu impacto universal.
Em momentos de luto, incerteza ou solidão, a canção atua como um epítafio — um monumento que guarda a memória daquilo que perdemos ou do que fomos. Mas não nos deixa estagnados na dor. Ao explodir no seu clímax final, ela exige a catarse: a libertação física e emocional de tudo o que trazemos guardado no peito.
Chorar ao ouvir esta obra não é um sinal de fraqueza ou nostalgia passiva; é o corpo a validar o poder curativo da arte. O primeiro amor de que Miles falava não passa pelo tempo nem envelhece. Afinal, as pessoas vão-se embora, as fases da vida encerram-se, mas a canção permanece — intocável, fiel e pronta para nos erguer sempre que a agulha volta a tocar no disco.
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